Sustentabilidade: onde está o valor?

Tudo indica que, após décadas caminhando em trilhas separadas, o mundo financeiro e o mundo real estão em vias de reconciliação. O modelo econômico ocidental, no “CTI” desde 2008, não parece estar reagindo à terapia de liquidez intensiva – e reluta em abandonar a respiração artificial. Finalmente os grandes líderes mundiais estão desconfiando que haja um esgotamento do modelo. O dinheiro como estimulante de desenvolvimento de projetos criou uma espécie de hipocrisia coletiva nas fronteiras destes empreendimentos com o meio ambiente e a qualidade de vida de todos os impactados. Apesar da maioria dos modelos de planejamento estratégico modernos já embutirem o conceito do “triple bottom line”, que incorpora os aspectos ambientais e sociais aos aspectos econômicos, consegue-se perceber na atmosfera dos conselhos de administração e reuniões de diretoria uma não disfarçada preferência, para não dizer obsessão, pelos lucros no curto prazo, relegando a concretização dos compromissos ambientais e sociais a um longuíssimo prazo. Como exemplos recentes, temos a postura da Volkswagen e da Mercedes-Benz, fraudando as próprias tecnologias para parecerem sustentáveis perante seus consumidores, quando na verdade vêm emitindo poluentes acima do legalmente permitido. E no caso brasileiro, o recente episódio protagonizado pela Samarco, uma referência em sustentabilidade para as demais indústrias do setor de mineração por conta dos compromissos assumidos em seus relatórios – quando no dia a dia os próprios executivos não rezavam pela cartilha divulgada ao mercado. As companhias dispõem hoje de todas as ferramentas para a implementação de um modelo de organização considerado sustentável. Empresas de consultoria proliferam pelo mundo oferecendo produtos de prateleira, que vão desde sistemas integrados de logística até complexos sistemas gerenciais para apoio à tomada de decisões. O segredo para a aplicação do conceito de sustentabilidade está na escolha e adaptação destas ferramentas gerenciais que já se encontram no mercado. Atualmente, a maioria delas está baseada no conceito econômico e não se encontram integradas às atividades de cunho social e ambiental, que muitas vezes também existem de forma estruturada na mesma empresa. Estes sistemas com diferentes focos – econômico, social e ambiental – precisam se comunicar e passar a ter um único objetivo: a sustentabilidade. É fundamental olhar para estas três variáveis dentro da empresa e aprender a enxergar uma. Trata-se de uma questão de hábito. E como somos um tanto preguiçosos em assimilar novos costumes, a ONU e o Banco Mundial, por intermédio do seu braço financeiro (IFC), entre outras instituições e organizações, fomentaram uma série de diretrizes e mecanismos focados no setor financeiro. O objetivo é criar o conceito de “investimentos socialmente responsáveis”, a exemplo dos Green Bonds – papéis com lastro em projetos sustentáveis. De acordo com a Climate Bonds Iniciative, esses títulos podem movimentar 100 trilhões de dólares nos próximos anos. O dinheiro, portanto, está mais caro para quem não tem compromisso com a sustentabilidade. É o primeiro alerta aos investidores e administradores de empresas em relação a estes novos tempos: um negócio não vale somente pelo seu desempenho econômico ao longo do tempo, mas também pelo desempenho ambiental e social. Negligência ou fraudes ambientais vão custar caro ao caixa e à imagem da uma empresa. Temos aí uma excelente oportunidade para que a sustentabilidade passe, então, a ter o seu devido valor reconhecido. Mas só o futuro dirá se estes mecanismos serão suficientes para uma verdadeira mudança de pensamento nas empresas.
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