Cambuhy tem US$ 1 bi para aquisições

Pedro Moreira Salles, presidente do conselho de administração do Itaú Unibanco, e mais três sócios, todos com larga experiência no mercado financeiro, estão montando uma companhia de investimentos com capital inicial de US$ 1 bilhão a ser aplicado na compra de empresas ou de participações. Os outros três são Pedro Bodin, sócio não-executivo do grupo Icatu, Marcelo Barbará e Marcelo Medeiros, ambos ex-Garantia e atualmente da LanxCapital Investimentos.

Juntos, integram o comitê de investimentos da nova companhia, batizada de Cambuhy , numa referência à fazenda da família Moreira Salles onde foi selado o acordo entre eles. Moreira Salles e Medeiros serão co-CEOs.

A criação da empresa, que deve estar formalmente criada em mais duas semanas depois de cerca de um ano de negociações, não significa a saída de Moreira Salles das suas funções no conselho do Itaú Unibanco. Ele vai se dividir entre as duas atividades. "Me dediquei à integração dos dois bancos [Itaú e Unibanco], às questões de governança, criação de comitês, à criação de uma ”cultura” empresarial do grupo e à formação de mão de obra. Agora isso já está feito e consigo abrir espaço na minha agenda para outras atividades", disse Moreira Salles ao Valor, enfatizando que seu compromisso com o grupo Itaú, do qual é um dos principais acionistas, "continua o mesmo".

A Cambuhy vai operar com capital próprio, sem prazos para fechar negócios ou para sair deles, sem regras obrigatórias de diversificação das aplicações e sem restrições de onde investir, exceto o setor financeiro. Pela participação de Moreira Salles no Itaú Unibanco, não serão feitos investimentos em nenhuma área do sistema financeiro. A proposta é a compra de empresas em operação, de qualquer setor da economia, em que sejam identificadas oportunidades de crescimento pela aplicação das experiências dos quatro sócios. Não está excluída a possibilidade de compra de participações minoritárias, mas não é este o propósito central. A intenção é mesmo comprar o controle de empresas e influir na sua administração por prazos longos.

Os recursos já estão ”separados”. Virão dos sócios e das suas famílias. A Cambuhy não fará gestão de recursos – ou seja, até o momento do investimento, o dinheiro vai continuar aplicado onde está no momento, como na LanxCapital Investimentos, sob a gestão de André Lara Rezende. Não se pretende captar recursos de terceiros, embora investidores possam eventualmente vir a se juntar ao grupo na compra de uma determinada empresa.

A ideia é ter "total liberdade", na expressão de Medeiros, para escolher a empresa em que investir e o momento da aplicação, já que a companhia não terá que prestar contas a fundos ou investidores que exigem resultados a curto prazo. "Achamos que temos capacidade para olhar oportunidades de investimento sob uma ótica diferente. Não temos pressa em tomar decisões", explicou Moreira Salles.

O início das operações da Cambuhy – que deverá ter uma equipe pequena, cerca de oito pessoas no primeiro momento, incluindo os quatro sócios – coincide com a crise dos mercados financeiros internacionais, mas isso pode até ajudar os negócios. Investir em "momentos de exuberância" é muito mais arriscado, momentos de mais realismo são melhores para a avaliação dos ativos", disse Bodin. Por ser uma companhia que mira o longo prazo, não será também a queda das cotações das ações nas bolsas de valores ou a desvalorização dos ativos de uma empresa no curto prazo que tornará o negócio mais interessante.

Os quatro sócio são amigos de longa data, estão em momentos de vida similares, todos com pelo menos 25 anos em funções executivas relevantes e com "valores, ideias parecidas e mesma faixa etária". Pedro Moreira Salles está com 51 anos e é carioca como o economista Pedro Bodin de Moraes, de 55 anos, que, além das funções no Grupo Icatu, integra o conselho do Itaú Unibanco. Ex-diretor do Banco Central no começo dos anos 90, Bodin foi citado várias vezes como uma opção para presidente do BC, inclusive antes da nomeação de Henrique Meirelles no governo Lula.

O caçula do grupo é também carioca: Marcelo Barbará, de 48 anos, é CEO da RB Capital, empresa de securitização na área imobiliária. Ele continuará a exercer essas funções por pelo menos dois anos, até que a gestão da empresa passe para as mãos de uma nova geração. Marcelo Medeiros é o único paulista, tem 51 anos, está à frente do DLJ South American Partners, um fundo de private equity que já alcançou a maturação de seus investimentos e está na fase de desinvestir. Por isso mesmo, Medeiros terá mais tempo para tocar a Cambuhy junto com Moreira Salles. "Não basta termos afinidade, é importante termos complementaridade", para o sucesso da nova empresa. Não queremos botar capital em uma empresa para vê-la seguir no mesmo ritmo, queremos ser transformadores", diz ele. E o foco é, sem dúvida, Brasil.

A empresa a ser comprada pode até ter sede fora, mas o que importa é o negócio no Brasil, porque eles estão convencidos de que hoje o país tem regras estáveis, um mercado consumidor relevante e perspectivas favoráveis para investimentos em projetos de longo prazo.

(Vera Brandimarte e Célia de Gouvêa Franco | Valor)

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