Consultores conquistam espaço entre as famílias

A estabilização da economia, o aumento do número de famílias com patrimônios milionários, o aumento na sofisticação do mercado financeiro e até a perspectiva de queda de juros no longo prazo contribuem para o crescimento de uma atividade discreta, mas que vem ganhando espaço a cada ano: os "family offices". No começo da década passada, havia apenas cinco escritórios atuando no Brasil. Hoje, são cerca de cem os consultores dedicados a preservar, fazer crescer e perpetuar a riqueza de famílias milionárias. "Somos como o ”conciérge” dos interesses da família de nossos clientes", explica Alexei Antoniuk, "family oficcer", de Curitiba. "Fazemos desde a consultoria financeira e o planejamento tributário, passando pela parte de proteção, com seguros de vida e de saúde; até o planejamento sucessório", explica.

Na verdade, o trabalho varia muito e nem todos os escritórios oferecem um leque de serviços tão completo. Alguns gerenciam o patrimônio do cliente, ou parte dele, diretamente – outros, não. A discrição é característica comum de todos eles. Os profissionais do setor não revelam o nome de seus clientes em hipótese alguma. Trata-se, no entanto, de pessoas com um patrimônio líquido de R$ 2 milhões a R$ 3,5 milhões para cima. "Estamos falando de ativos com liquidez, de dinheiro disponível para investimentos", diz Carlos Coradi, da EFC, um dos pioneiros da atividade de Family Offices no país.

O cliente do Family Office, segundo Antoniuk, é uma pessoa que está preocupada com o futuro dos filhos e dos netos e quer passar a riqueza para a próxima geração. Não se enquadra necessariamente entre os novos milionários – "poucos têm essa visão no começo, porque a riqueza para eles ainda é um fato novo", explica.

Para quem ainda não se convenceu do impacto que um bom serviço dessa natureza pode ter, Aloísio Vasconcellos, diretor da Westchester, empresa de planejamento fiscal e sucessório, e de proteção de ativos, apresenta números eloquentes. "Um patrimônio de R$ 10 milhões, em um processo de herança, deixa uma despesa de R$ 780 mil em pelo menos dois anos, se não houver disputas sucessórias", diz.

Para Rogério Bastos, consultor financeiro certificado pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros, o cenário é favorável para os consultores independentes, pois o mercado já alcançou um nível de sofisticação semelhante ao dos países desenvolvidos. "O mercado deve crescer, mas com menos players", afirma Bastos, que acredita em um movimento de consolidação no segmento de Family Offices.

José Hugo Laloni, presidente do Comitê de Gestores de Patrimônio Financeiro da Anbima, prevê uma década de expansão e explica o motivo: "Surgem 29 novos milionários por dia no Brasil. Além disso, aumenta o número de empresas com faturamento entre R$ 300 milhões e R$ 1 bilhão, gerando dividendos e crescimento patrimonial para seus acionistas.

Essa expansão chamou a atenção da Anbima, que criou um código de autorregulação para o setor. Lançado há pouco mais de um ano, o código teve adesão de 30 consultores até o momento. "É um volume expressivo", avalia Laloni. "Queremos apontar as melhores práticas e padronizar a atividade, dentro das diretrizes de organismos como a CVM e o Banco Central", explica.

Um dos princípios contidos no código é o de "suitability", denominação em inglês que significa operar em perfeita sintonia com o apetite de risco do cliente. "Se não houver consenso de valores entre o escritório e a família do cliente, o trabalho fica muito mais difícil", diz Antoniuk. Bastos concorda. "É preciso que o ”family office” e o investidor compartilhem a mesma filosofia para a parceria funcionar no longo prazo. "O importante é mostrar ao cliente que o dinheiro não é apenas um fim, mas um meio para se atingir objetivos", diz. (C.V.)

(Valor)

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