Demanda aquecida obriga Peugeot a rever investimentos

SÃO PAULO – O grupo francês PSA Peugeot Citroën vai anunciar um novo programa de investimentos nos próximos meses. O plano divulgado no ano passado, que soma 700 milhões de euros para ampliar produção e modernizar produtos no Brasil e Argentina, será insuficiente para atingir as metas da companhia, segundo Carlos Gomes, presidente da operação na América Latina.

A empresa e o mercado estão crescendo acima das expectativas, diz o executivo. Para acompanhar o ritmo, a fábrica brasileira, em Porto Real (RJ), terá de funcionar 24 horas por dia, ininterruptamente, durante todo este ano e também em 2012.

Gomes, um executivo português que passou mais de dez anos na Fiat, antes de ir para o grupo francês, ainda não sabe quando poderá anunciar o novo aporte. "Talvez venha num pacote de presente de Natal", diz, bem humorado. Os recursos do programa, anunciado no segundo semestre de 2010, serão gastos até 2012. Não será o bastante, diz o executivo, para atender a expectativa da companhia de fazer com que a soma das participações das duas marcas (Peugeot e Citroën) na região suba dos atuais 5,9% para 7,5% até 2015.

O primeiro grande passo do processo de ampliação industrial no Brasil será dado em janeiro, quando, por meio de novos equipamentos, aquisição de mais robôs e outras mudanças na área de manufatura, a fábrica de Porto Real, que completou dez anos, terá a capacidade de produção elevada de 29 para 40 carros por hora.

A fábrica argentina, instalada em Palomar, também está sendo ampliada. Mas o executivo afirma que também aquela unidade precisará receber investimentos adicionais para atender a demanda.

Com nove meses no Brasil e também no comando da região, Carlos Gomes não alterou as projeções de vendas da companhia e nem tampouco a expectativa de expansão do mercado no Brasil mesmo depois das medidas que o governo brasileiro adotou na tentativa de conter o consumo. Ele acredita que o mercado brasileiro de automóveis e comerciais leves em 2011 deve até ultrapassar sua previsão de 3,45 milhões unidades.

O que pode atrapalhar um pouco, diz o executivo, é a falta de abastecimento de peças produzidas no Japão em carros importados. Os efeitos do terremoto seguido de tsunami no território japonês prejudicaram as entregas de caixas de câmbio para o modelo Peugeot 3008, produzido na Europa e que começou a ser exportado recentemente para o Brasil.

Com formação em economia, o executivo português também pretende preparar a operação latino-americana para atingir resultado operacional positivo este ano. A PSA não divulga resultados financeiros, mas Gomes afirma que o primeiro trimestre superou as expectativas.

Uma das ações para manter o equilíbrio financeiro ao mesmo tempo em que a montadora tenta expandir a atividade é a redução do número de plataformas dos veículos fabricados no Brasil. A plataforma representa a base de cada automóvel.

Atualmente o grupo trabalha com três plataformas diferentes no Brasil e mais três na Argentina. Até 2015, haverá apenas uma plataforma em cada país.

Isso significa que todos os modelos de automóveis para produção no Brasil, daqui para a frente, serão desenvolvidos sobre uma plataforma para carros compactos, como a do Citroën C3. Já na Argentina, a linha passará a se concentrar totalmente numa plataforma para veículos médios, como a do Peugeot 408. Com isso, o grupo francês pretende elevar sua escala e concentrar compras de componentes, reduzindo os custos.

Essa estratégica busca alcançar um equilíbrio entre resultado financeiro e participação no mercado. "Não podemos pensar só no dinheiro porque isso compromete os investimentos que precisam ser feitos para a modernização dos produtos. Mas também não podemos nos concentrar somente nas vendas porque aí colocamos em risco o resultado financeiro", diz Gomes. O desafio, para o executivo, é "ser rentável, competitivo e inovador". "Porque o consumidor brasileiro gosta de ser seduzido", afirma.

Quando atingir uma fatia de 7,5% na região, o grupo ganhará mais força. Mas a companhia francesa continuará, destaca Gomes, distante do segmento dos carros populares. "Definitivamente não queremos competir com Volkswagen ou Fiat", afirma. "Nossa batalha não é para sermos líderes de mercado; queremos ser vistos pelo consumidor como líderes em inovação", completa.

Com essa imagem, o presidente da PSA acredita ser possível, inclusive, combater a concorrência de novas marcas. "Nós reconhecemos que essa indústria é muito competitiva; mas também acreditamos que, nos próximos dez anos, os quatro maiores fabricantes de automóveis do Brasil perderão, juntos, 10% do mercado. E nós pensamos em comer um pouco dessa cota", diz.

(Marli Olmos | Valor)

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