Dona do Reclame Aqui negocia com grupo japonês

Com 5 milhões de visitas mensais e índice de solução de problemas de 72%, o site Reclame Aqui virou referência para consumidores que se sentem lesados e chama atenção de promotores públicos e investidores. Negocia-se a venda de 30% da holding Óbvio Brasil, dona do Reclame Aqui. O plano é ampliar negócios como consultoria e abrir novos com potencial de gerar lucro.

O site tem parceria com o Ministério Público de Minas Gerais e prepara um convênio com o do Rio de Janeiro. O MP de Minas usou cerca de 40 mil comentários registrados no Reclame Aqui por clientes dos sites Compra Fácil e Americanas.com em processos que levaram à condenação das empresas.

O Reclame Aqui chamou a atenção de um grupo japonês que atua em publicidade e vê nele uma oportunidade de entrar no ramo de internet na América Latina. O nome ainda é mantido em sigilo, mas uma aposta, com base em fonte do mercado, é o Hakuhodo, segundo maior grupo publicitário do Japão. Os japoneses devem vir a São Paulo na segunda quinzena de agosto para uma conversa definitiva. Na mesa, até agora, a proposta que mais agrada aos sócios brasileiros é a venda de 30% da holding, por R$ 10 milhões.

Desde que criou o site em 2001, por ter ficado indignado com o "overbooking" de uma companhia aérea, Maurício Vargas diz que já recebeu várias ofertas de compra. A primeira foi em 2005, quando um empresário alemão convenceu o sócio dele, o publicitário que criou a marca Reclame Aqui, de vender 50% do negócio por R$ 12 mil. O mesmo alemão comprou a parte de Vargas por R$ 100 mil em seguida. "Eu fiquei tão doente, porque sempre fui apaixonado por esse projeto, que recomprei o site seis meses depois", conta.

O alemão, que dizia não compreender o mercado brasileiro, devolveu o negócio por R$ 60 mil. O lucro na negociação foi inédito na história do Reclame Aqui. "Foi muita sorte, eu não sou bom de negócio", brinca Vargas, que hoje preside o site, mas já repassou ao filho, o estudante de Publicidade Felipe Paniago, os 45% que ainda mantinha na holding. Ele divide a sociedade com Edu Neves, diretor-executivo (42%) e Diego Campos, diretor de TI (13%).

O site nunca deu lucro. Neste ano, os sócios já tiraram R$ 700 mil do bolso. O internauta não paga pelo serviço. As doações voluntárias, que nunca passam de R$ 25 mil no mês, garantem o pagamento do provedor. O clima do site, recheado de críticas a empresas, e as regras rígidas para anunciantes (devem ter índice "bom" ou "ótimo" no ranking do site) têm afastado anunciantes.

"Acreditamos que o Reclame Aqui terá que ser sustentado pelos negócios que gravitam em torno dele", diz Neves. Foi a aposta nos projetos paralelos que levou à criação da holding Óbvio Brasil, da qual faz parte a ProSummers, empresa de consultoria e treinamento que garantiu praticamente sozinha o faturamento de R$ 3,5 milhões do grupo no ano passado.

A holding, com 32 funcionários, a maioria em Campo Grande (MS), tem outros projetos em teste ou a caminho. Em agosto estreia o Confie Aqui, em que o consumidor vai pagar cerca de R$ 10 por mês para receber apoio desde o momento da compra e não só depois de ter problemas.

Outro lançamento à vista é uma espécie de câmara de arbitragem, na qual empresa e cliente fariam acordos, sem necessidade de ir à Justiça. Também estão em teste uma ferramenta de monitoramento de imagem na internet e a formação de plataformas de consumidores dispostos a participar de pesquisas ou testes de produtos.

O investimento para efetivar esses projetos é estimado pelos sócios em R$ 8 milhões. Por isso encontrar um parceiro é tão importante. Dentro da proposta de R$ 10 milhões por 30% da holding, R$ 2 milhões ficariam com os sócios.

Mas esse valor ainda não é definitivo na negociação. "Eles [os japoneses] querem investir, mas querem deixar muito no caixa da empresa. Temos um longo caminho percorrido e precisamos ser remunerados por esse esforço, feito até agora com dinheiro do bolso", diz Neves. O grupo japonês guarda uma vantagem: o perfil do site seria mantido. "Há duas formas de comprar o Reclame Aqui. Uma é para investir nessa visão, a outra é para sucatear e usar o cadastro de consumidores para ganhar algum dinheiro", diz Neves.

(Luciana Seabra l Valor)

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