O avanço da renda fixa

Crescimento do mercado de capitais e interesse dos investidores abrem nova frente de captação de recursos, mesmo para as empresas fechadas.

Os bancos de investimento estiveram muito ativos no primeiro semestre de 2011. As emissões de papéis de renda fixa cresceram 14%, no período. A soma de lançamentos de debêntures, notas promissórias e fundos baseados em dívida privada atingiu R$ 42,1 bilhões nos primeiros seis meses do ano. Esse avanço decorre da entrada de novos participantes nesse mercado. Empresas de médio porte ou de capital fechado estão descobrindo que é possível captar dinheiro sem precisar passar por toda a liturgia de um lançamento de ações. “Esse movimento decorre de dois vetores”, diz Fernando Freiberger, diretor do banco HSBC no Brasil. “As estratégias financeiras das empresas estão mais sofisticadas, e a oferta de dinheiro, especialmente dos investidores institucionais, cresceu.”

Um bom exemplo é o da subsidiária da americana Monsanto. Uma das líderes no mercado brasileiro de sementes, a empresa estruturou, em março, sua primeira captação por meio de um instrumento de renda fixa. No caso, um fundo de investimento em direitos creditórios, o chamado Fidc. O nome complicado e a estrutura sofisticada indicam um princípio simples. Toda empresa que vende a crédito tem títulos a receber, os direitos creditórios. Um Fidc reúne muitos desses direitos em uma estrutura financeira que paga juros, e a vende a investidores com dinheiro e apetite por risco. No caso da Monsanto, os compradores foram fundos de investimento e de pensão. “Nossa intenção em estruturar o Fdic foi abrir caminho no mercado de capitais”, diz Eduardo Bezerra, diretor financeiro da empresa. “O fundo será uma alternativa a mais de captação”, afirma o gerente de tesouraria, Cristiano Pirichetti.

Na ponta do lápis, o custo de uma emissão privada para uma empresa estreante no mercado não é muito diferente do de uma linha de financiamento tradicional de um banco. No entanto, quem conhece o mercado sabe que, nesses casos, o custo não é o principal fator de decisão. Segundo João Consiglio, diretor do banco Santander, além de proporcionarem uma oferta maior de recursos, as emissões de renda fixa são mais maleáveis. “É possível montar uma operação que case bem com o fluxo de caixa da empresa”, diz Consiglio. Outra vantagem é que qualquer empresa de médio porte que tenha em sua agenda uma abertura de capital pode usar esse mercado como um preparatório. “A empresa tem de melhorar na governança, apresentar números auditados e aprender a se comunicar com o mercado, e tudo isso é útil se ela quiser avançar para vender ações”, afirma Consiglio.
 
O raciocínio vale até mesmo para quem já tem papéis listados em bolsa, porque serve como uma reserva de segurança para momentos de mau humor nos pregões. Em maio, a incorporadora Even captou R$ 250 milhões por meio de uma emissão de debêntures, passando a ter acesso a uma nova fonte de recursos. Dirigidos a investidores institucionais, os papéis têm prazos de até cinco anos e o dinheiro foi usado tanto para alongar e baratear as dívidas quanto para sustentar o crescimento da empresa. “Nosso balanço permite acesso à dívida”, diz o diretor de relações com investidores da Even, Dany Muskat. De acordo com Muskat, a intenção foi inaugurar o mercado, e que, embora não haja pretensão de fazer novas emissões no curto ou no médio prazo, é essencial contar com essa possibilidade adicional. “O investidor que compra dívida tem um objetivo diferente do que compra ações”, diz Muskat.

“Ele busca a segurança de uma empresa preocupada com isso, o que permite o acesso ao capital mesmo em momentos em que a bolsa estiver em baixa.” O exemplo típico são os chamados family offices, que administram os recursos de famílias muito ricas. Esses investidores são ávidos compradores de papéis seguros que pagam bons juros e não precisam ter muita liquidez, pois a intenção é comprar e manter em carteira. Freiberger, do HSBC, acredita que o movimento de emissão de dívida pelas empresas deve continuar ao longo dos próximos anos, sem muita interferência das oscilações das taxas de juros.
 
Segundo ele, as empresas de médio porte aprenderam a planejar a mais longo prazo, pensando em períodos de três anos, e sofisticaram suas operações financeiras. “Até há algum tempo, era preciso visitar uma empresa de grande porte para ouvir um diretor financeiro falar em operações de alongamento do perfil da dívida, mas hoje as conversas mais técnicas chegaram às empresas menores, com faturamento de R$ 200 ou R$ 300 milhões”, diz ele. Isso ocorre graças ao bom e velho pragmatismo. Em um cenário cada vez mais competitivo, custo e acesso imediato a capital são diferenciais competitivos cada vez mais importantes. “Muitas vezes, poder contar com uma estrutura sólida de financiamento representa a diferença entre sua empresa ser compradora ou comprada”, afirma Freiberger.

(Cláudio Gradilone e Juliana Schincariol l Isto Dinheiro)
 

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