Aportes no setor já somam R$ 1,7 bi

A incorporadora Rossi prepara um aumento de capital de R$ 500 milhões, com recursos dos acionistas controladores e potenciais investidores, para melhorar a estrutura de capital. O plano, divulgado ontem, é semelhante ao anunciado por outras duas empresas do setor – PDG e Brookfield -, que recentemente também buscaram o apoio de seus sócios. Ao todo, o aporte de recursos nas três construtoras deve somar R$ 1,7 bilhão.

Depois de mais um trimestre de resultados ruins e abaixo do esperado, com nova rodada de revisão de orçamentos, redução de margens, consumo elevado de caixa e queda de lançamentos e vendas, o setor de incorporação viu os níveis de endividamento subirem. As empresas em situação mais complicada têm pelo menos mais dois trimestres de desafios pela frente para que consigam, de fato, um alívio financeiro, segundo analistas.

Considerando os balanços do segundo trimestre, as construtoras aparecem em posição de destaque entre as companhias com pior situação de endividamento medida pelo indicador dívida líquida sobre lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês), bastante utilizado como termômetro da saúde financeira das empresas em geral. Outro indicador, de dívida líquida sobre o patrimônio líquido, também piorou na comparação com 2011.

“Quem atrasou a entrega de obras e ainda não está com a execução de projetos em dia tem o recebimento de receitas postergado, o que aumenta consideravelmente o nível de alavancagem”, afirma Wesley Bernabe, analista do Banco do Brasil. “Assim, precisam buscar solução, como o que fez a Rossi.”

A alavancagem do setor aumentou muito nos últimos anos. A diretora da área de avaliação de empresas da Fitch Ratings, Fernanda Rezende, diz que as companhias apresentaram expansão muito forte logo após a abertura de capital, em 2007, e para apoiar essas taxas de crescimento tiveram de aumentar bastante a alavancagem. “E trata-se de um setor que demanda muito financiamento de longo prazo, inclusive para a produção.”

O problema é que o setor passou por um desaquecimento nos últimos trimestres e os custos dos empreendimentos ficaram acima do orçado, com impacto direto no Ebitda. “O que a gente espera ver a agora é que as empresas não continuem a se endividar como nos últimos três anos”, afirmou Fernanda. Outro ponto importante é que, dado o longo ciclo do setor, as atitudes que as companhias tomam num curto prazo demoram para refletir nos resultados. “Então, medidas que estão sendo tomadas agora para melhorar a eficiência e as margens vão gerar resultado aos poucos.”

A Tecnisa tem a pior relação dívida líquida sobre Ebitda no segundo trimestre dentro do setor, sem considerar a Rossi, que ainda não divulgou o balanço auditado do trimestre de abril a junho. O indicador da Tecnisa passou de 3,3 vezes em junho de 2011 para 306 vezes agora. O indicador de dívida sobre o patrimônio também piorou, mas em menor escala. Passou de 55% para 82,1%.

“Não vamos fazer nenhuma emissão de ações. A posição de liquidez e endividamento da Tecnisa é adequada”, diz Thomas Brull, diretor financeiro da Tecnisa. Para ele, a melhor forma de medir a situação financeira da companhia é acompanhar o indicador de endividamento corporativo líquido, que exclui o financiamento da produção, dividido pelo patrimônio. “Nesse caso, nosso número é de 28% quando o limite previsto nas emissões é de 80%”, ressalta.

“O endividamento da Tecnisa está alto porque o Ebitda foi muito afetado pela revisão de custos das obras”, explica Bernabe, do BB, lembrando que são eventos extraordinários, que podem não se repetir nos outros trimestres. “Os próximos resultados devem ser melhores porque a empresa já decidiu lançar menos [e com mais qualidade] e tem entregas para 2012, o que deve gerar caixa.” O projeto Jardim das Perdizes, um dos maiores do setor, também contribui para melhores expectativas para a empresa.

O indicador dívida líquida sobre Ebitda nem sempre é a melhor métrica para analisar o setor, pois não reflete tão bem a geração de caixa quanto em outros segmentos. E o indicador normalmente já é maior em construção, por causa do alto volume de contratos voltados ao financiamento da habitação. De qualquer forma, chama a atenção a evolução dos números.

Vale destacar ainda que várias empresas aparecem com um indicador “fora de curva” da trajetória histórica no segundo trimestre. Isso porque a performance ruim do período derrubou o Ebitda e, como consequência, o indicador de endividamento explodiu.

Independentemente do motivo, a elevação dos indicadores pode levar à renegociação de cláusulas de contratos de dívida, como debêntures, que normalmente limitam a situação financeira da empresa. Sem realizar o aumento de capital, a Rossi, por exemplo, poderia ter de negociar “covenants” de emissões, diz o analista do BB.

A Brookfield e a PDG também tiveram uma piora na situação financeira (veja quadro ao lado).

O aumento de capital preparado pela Brookfield é de R$ 400 milhões. A operação, que será aprovada pelos acionistas no dia 17, visa dar fôlego financeiro à companhia, que tem R$ 1,23 bilhão em empréstimos com vencimento em até um ano contra apenas R$ 548,8 milhões em caixa. Entre abril e junho, a empresa registrou prejuízo de R$ 353 milhões, por conta, principalmente de estouros nos orçamentos das obras.

A captação de R$ 800 milhões da PDG foi concluída na semana passada. A maior parte, ou R$ 483 milhões, resultou de um aporte negociado com a Vinci Partners.

(Daniela Meibak, Chiara Quintão e Silvia Fregoni | Valor)

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