Até quando o Santander Brasil vai sustentar o grupo?

Com queda de 70% no lucro provocada pela crise mundial, o banco espanhol depende cada vez mais da operação brasileira – o problema é que ela também precisa de ajustes.

A atual crise da Europa e dos Estados Unidos fez com que o grupo espanhol Santander passasse a enxergar o Brasil como um porto-seguro para suas operações. No primeiro semestre do ano, o lucro do grupo caiu 21%, aos 5,08 bilhões de dólares. Por aqui, apenas no segundo trimestre do ano, a operação brasileira saltou 18%, aos 2 bilhões de dólares. “O grupo está satisfeito com a participação do Brasil e um crescimento maior é sempre bom”, diz o espanhol Marcial Portela, presidente da unidade brasileira. O tal crescimento mencionado por ele, aliás, tende a acelerar nos próximos meses. O Brasil corresponde hoje a 25% do lucro total do grupo, 2 pontos percentuais a mais do que no semestre passado.

Para manter o grupo saudável, naturalmente o Brasil se tornará cada vez mais importante por conta da estabilidade da economia. Mas o Santander precisa reagir. “Anteriormente o banco se contentava com uma posição coadjuvante, mas agora com os abalos no grupo, a operação brasileira precisa arrumar a casa e ganhar mais destaque”, diz o analista Rodolfo Amstalden, sócio da consultoria Empiricus. “Não há opção para o Santander, a não ser se concentrar no Brasil. O problema é que a estratégia deles não está clara. Eles querem ser fortes onde? Varejo, crédito para empresas?”, questiona Amstalden.

Atrás dos rivais – O próprio Portela admite que, apesar do peso da operação brasileira, há muito o que fazer. “O desempenho do banco está abaixo dos concorrentes. Isso é um fato. Nossa visão é de construção de longo prazo. Estamos num momento de investimentos em tecnologias e aberturas de novas agências”, diz ele. Na opinião de Sandro Cimatti, sócio diretor da CVA Solutions, empresa de pesquisa de mercado e consultoria, a trajetória do Santander tende a ganhar mais destaque no mercado brasileiro. “A transição da operação com o Real, que era o mais difícil, o Santander já fez. Em comparação com os outros bancos, o espanhol tinha muito mais para arrumar na sua integração”, avalia.

Apesar dos bons resultados no país, o crescimento da carteira, por exemplo, foi menor e a inadimplência aumentou, chegando a 6,4% — o que não chega a ser um problema, já que o banco está capitalizado depois do IPO realizado há dois anos. O crescimento da carteira no ano passado foi de 19% e deve se manter no mesmo patamar neste ano. “Como não há muitas opções para aquisições, os bancos investirão no crescimento orgânico. Todos vão competir com as mesmas armas”, diz Cimatti.

Questionado sobre o conservadorismo do Santander em comparação com seus concorrentes, o presidente do banco, Marcial Portela, afirma: “O crescimento do banco vai acompanhar o mercado. Nós queremos crescer também dentro de nossa capacidade. O bom momento da economia brasileira nos faz ficar tranquilos sobre onde podemos crescer”. Agora cabe ao banco avaliar se um crescimento mais lento e sustentável permitirá uma maior participação do que se arriscar numa estratégia mais agressiva.

(Marcio Orsolini l Exame)

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