Brasileiras já têm 42% de cimenteira portuguesa

Em mais uma rodada de lances ousados e inesperados, a composição acionária da Cimentos de Portugal (Cimpor) ganhou novo desenho ontem e com nuance ainda mais brasileira. Contrariando as expectativas e seu próprio discurso na imprensa portuguesa, o grupo Teixeira Duarte, até então maior acionista individual da cimenteira, vendeu sua participação de 22,17% ao grupo Camargo Corrêa, em um negócio de quase € 1 bilhão. Com mais 3% de outros acionistas ligados aos Teixeira Duarte, que têm até até dia 15 para aderir, o grupo brasileiro garantirá 25%, com desembolso da ordem de € 1,1 bilhão.

"Em menos de 24 horas fechamos a operação", relatou, de Lisboa, Vitor Hallack, presidente do conselho de administração da Camargo Corrêa. As negociações começaram às 12:30 h de terça-feira e acabaram às 5:50 h de ontem. "A proposta de venda da Teixeira Duarte surgiu naturalmente", afirmou o executivo, lembrando que a Camargo vinha travando conversações com todos os acionistas da Cimpor há muito tempo. "Eles tinham conhecimento que éramos compradores, pois na semana passada fizemos uma oferta pela participação da Lafarge, de 17,3%, que acabou adquirida pela Votorantim".

Com isso, a Camargo garantiu posição relevante no quadro de acionistas da Cimpor, ao lado da concorrente brasileira Votorantim, e impôs uma nova barreira às pretensões da Cia. Siderúrgica Nacional (CSN), empresa comandada por Benjamin Steinbruch, que ontem encontrava-se na Europa segundo uma informação passada ao Valor. A CSN informou que segue com sua oferta pública de aquisição (OPA) lançada em dezembro, de € 3,86 bilhões, para adquirir 100% da cimenteira.

O apetite da Camargo não para nos 25%, pelos quais ofereceu € 6,50 por ação, 13% maior que os € 5,75 da CSN. "Temos intenção de comprar mais, podendo chegar até o limite de 33%", afirmou Hallack. Além disso, qualquer comprador é obrigado a fazer uma oferta pública de compra da totalidade das ações da empresa.

Com a operação fechada no raiar da quarta-feira, destacou o executivo, o grupo brasileiro tornou-se, isoladamente, o maior acionista da Cimpor. Mas lembrou que a Camargo não tem o controle da empresa, assim como a Votorantim. "A gestão da companhia é tirada de decisões colegiadas do grupo de acionistas".

Para fazer a aquisição bilionária, de R$ 2, 8 bilhões, a Camargo Corrêa firmou uma linha de crédito com o Banco HSBC e garante ter outras alternativas de financiamento, além de capital próprio, para novos lances.

Depois dos movimentos de Votorantim, na semana passada, e da Camargo ontem, restou à CSN recorrer aos órgãos antitruste brasileiros para tentar reverter as operações de Votorantim com Lafarge. Ontem, os advogados da siderúrgica incluíram na medida cautelar levada ao Cade o negócio da Camargo com a Teixeira Duarte. A grande dúvida agora é se a CSN vai, até sexta-feira, alterar os termos de sua oferta, inferior também ao valor por ação que a Votorantim teria pago, de € 6,17, segundo informações que circularam após o negócio. A avaliação é que Steinbruch foi nocauteado na reta final do jogo: sua oferta está aberta até a quarta-feira de cinzas, dia 17.

Procurados, tanto Votorantim quanto CSN informaram que não iriam se pronunciar sobre a operação de compra da Camargo.

A imprensa portuguesa apontava ontem que o fiel da balança na formação do bloco de controle na Cimpor será possivelmente Manuel Fino, empresário que possui 10,7% dos papéis da cimenteira e que ainda detém direito de recompra dos demais 10% em poder da Caixa Geral de Depósitos (CGD), que formou acordo conjunto de acionistas na semana passada com o grupo Votorantim.

Sobre a decisão que o Cade tomará, Hallack disse acreditar que o órgão não usará um entendimento simplista de que a empresa é controladora da Cimpor, dona no Brasil de 9% do mercado. A Camargo detém 9,9% das vendas. A Cimpor será mantida como empresa independente, gerida por um conselho de 15 membros, sendo quatro independentes. Desse colegiado será tirado, em consenso de acionistas, a diretoria executiva. "Vamos, de forma alinhada, contribuir para o crescimento da empresa, que opera em 13 países e tem de 60% a 70% da receita oriunda de mercados emergentes".

O negócio cimento respondeu por R$ 2,3 bilhões da receita líquida do grupo Camargo Corrêa em 2009, com sete fábricas no Brasil, nove na Argentina e uma joint venture no Paraguai. "Desde que propusemos uma fusão com a Cimpor, onde aceitamos ficar com menos de 50%, demonstramos um voto de confiança na empresa, para definir um projeto de longo prazo, afirmou Hallack.

A disputa entre grupos brasileiros por uma participação na Cimpor, lançada em 18 de dezembro com a OPA da CSN, foi marcada por muitas informações de bastidor e intenso trânsito de executivos brasileiros na rota São Paulo-Paris-Lisboa. O preço oferecido por Steinbruch e o prêmio de 5,9% foi rejeitado duas vezes pelo conselho de administração da portuguesa. A oferta foi classificada de "oportunista, irrelevante e perturbadora da atividade da empresa".

De olho nos ativos portugueses desde 2000, à época da privatização da cimenteira, a Camargo Corrêa fez a primeira tentativa de entrar no páreo em 13 de janeiro, quando apresentou proposta de fusão dos ativos das duas empresas. Esse modelo foi abortado pela CMVM, órgão do mercado de capitais português, que exigiu sua retirada ou a apresentação de uma OPA. Na ocasião, a Camargo preferiu recuar, mas não saiu do jogo.

Hallack disse que o grupo entrou na disputa da forma certa. "Chegou respeitando a empresa e seus acionistas, com uma proposta de criar valor à companhia, aliando interesses conjuntos". Não foi nada hostil", afirmou.

Na semana passada houve o primeiro lance decisivo na disputa. A Votorantim, cujo interesse também já se tornara público, garantiu a cobiçada e concorrida fatia da Lafarge e ainda firmou um acordo com a CGD. A operação, cujo valor final não foi fixado, prevê a criação de uma nova empresa que receberá ativos da Votorantim no Brasil e da qual a Lafarge terá uma participação.

Segundo Hallack, a aquisição de ontem não tira o apetite da Camargo em outros ativos de cimento. "O interesse é seguir crescendo, no Brasil e exterior, para se posicionar entre os maiores do mundo. A Cimpor já é a 11ª do mundo. A Camargo está na 33ª posição.

No pregão de ontem em Lisboa, a ação da Cimpor, devido ao negócio entre Camargo e Teixeira Duarte, fechou a € 5,54, uma queda de 5,25%, abaixo do valor oferecido pela CSN.

(Ivo Ribeiro e Stella Fontes – Valor Econômico)
 

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