BTG inicia a oferta e abre seu modelo para investidores

Ao dar início às apresentações formais para investidores sobre sua oferta pública inicial de ações, o BTG Pactual encara a missão e o desafio de esclarecer o mercado sobre o modelo do seu negócio, de características únicas e, até hoje, de difícil compreensão e cercado de segredo.
 
Pela primeira vez desde que foi criado, o banco está sendo levado a dar transparência a suas atividades. Quem acompanhou as primeiras reuniões com investidores afirma que o BTG vem destacando que não é perfeitamente comparável com outros bancos brasileiros listados na bolsa – em particular Itaú Unibanco e Bradesco, que têm sido a referência imediata de preço para a oferta.

O BTG atua em sete linhas de negócio e, na avaliação feita por seus executivos aos investidores, cada uma delas isoladamente deveria ser comparada a instituições específicas. A relação com Bradesco e Itáu pode ser feita para a carteira de crédito. Os múltiplos de Goldman Sachs seriam referência para o segmento de banco de investimentos. Na parte de gestão de recursos, uma comparável seria a gestora global Fidelity. E por aí vai.

A oferta de ações pretendida pelo BTG deverá levantar entre R$ 2,6 bilhões a R$ 4,1 bilhões, dependendo do preço fixado no próximo dia 24 – a faixa sugerida por ”unit” é de R$ 28,75 a R$ 33,75 – e da colocação ou não de lotes extras. O banco foi avaliado entre R$ 23 bilhões e R$ 27 bilhões antes do aumento de capital e a oferta de ações poderá acrescentar R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões a esse valor (fatia primária).
 
Segundo investidores que acompanharam as apresentações, faz parte da tese da operação mostrar que o BTG deveria ser negociado com prêmio em relação aos bancos comerciais e de crédito, por conta de suas atividades de gestão de recursos e de banco de investimento, em que conseguem operar com retornos sobre o capital (ROE) bem maiores.

Outro ponto destacado nas apresentações é o tamanho do BTG em relação aos outros bancos listados no Brasil. O valor de mercado do Itaú é de US$ 83 bilhões; do Bradesco, US$ 62 bilhões. Quando chegar à bolsa, o BTG deverá valer cerca de US$ 15 bilhões. Esse valor é cerca de 24% do valor de Bradesco. Olhando cinco anos atrás, o BTG deveria corresponder a 10% do valor do Bradesco; e, há dez anos, a 5%. A percepção indicada pelo BTG é que essa diferença pode encolher mais, a exemplo do que ocorreu com o Goldman Sachs em relação aos bancos comerciais nos Estados Unidos.
 
Do total da oferta do BTG, 80% serão em recursos para o banco (oferta primária) e 20% poderão ser em venda de papéis dos atuais acionistas (secundária). Os investidores que estão vendendo uma fatia do que possuem são o fundo de private equity J.C. Flowers e as famílias Motta, Agnelli e Rothschild. Manterão suas posições intacta os fundos soberanos da China, de Cingapura e de Abu Dabi, assim como o fundo de pensão dos professores de Ontário e a família Santo Domingo, da Colômbia.
 
Ao final de 2010, após a oferta privada em que fundos injetaram US$ 1,8 bilhão no banco, o índice de Basileia, que mede a alavancagem do banco, foi para a casa de 20% e agora está em 16% (em dezembro estava em 17,5%). A intenção com a oferta primária é levar o índice novamente para perto de 20%. Com novos recursos, o banco poderá se alavancar mais e, consequentemente, aumentar a concessão de crédito. A carteira de crédito atual é de US$ 12 bilhões.

Outro aspecto que o banco tem procurado estressar com os investidores é justamente a segurança de sua operação. Os executivos tentam desconstruir a imagem de que o BTG Pactual só faz apostas arriscadas – como em tesouraria e compra de empresas -, substituindo-a pela percepção de um banco consistente em suas receitas e resultados.

Como já vinha sendo destacado pelo mercado, 32% da receita do banco vem da tesouraria, o que contribui para a percepção geral de investidores de que o negócio do BTG é mais arriscado. O banco tem indicado a expectativa de que esse percentual se torne um pouco menor, na faixa entre 25% e 30%.

Outro fator destacado é que 16% da receita vem da gestão de recursos e que todas as receitas com comissões (fees) cobre com folga os custos do banco.

Com a conclusão da compra da chilena Celfin, os ativos sob gestão deverão somar US$ 100 bilhões.

O BTG Pactual avalia que a taxa de retorno sobre o capital (ROE) sustentável é de 25% ao ano na média, mas em anos muito favoráveis poderá ser bem acima. No ano passado, o indicador ficou em 24,7%, apesar de 2011 ter sido um ano difícil para o segmento de banco de investimento – não houve nenhuma abertura de capital no segundo semestre e, no ano, a bolsa caiu 18%.

O custo de captação do banco tem spread pequeno em relação a Itaú e Bradesco – o título externo do BTG para 2016 está sendo negociado com taxa de retorno de 4,2% em dólares, entre 30 e 40 pontos-base acima de papéis semelhantes de Itaú e Bradesco.

O banco Panamericano, adquirido pelo BTG no ano passado, ficará em uma holding separada. A operação ainda está no meio de uma reestruturação, e a expetativa é que só daqui a um ano o processo seja concluído. O BTG tem dito que as perspectivas para o médio prazo são animadoras. Sobre seu braço de private equity, o banco avalia que ainda há ganhos a realizar. Como exemplo, cita que tanto BR Properties quanto BR Pharma têm valores de mercado hoje maiores do que aqueles registrados pelo BTG quando iniciou as operações. O mesmo vale para Estapar. A diferença pode ser da ordem de R$ 1,5 bilhão.

Procurado pelo valor, o BTG informou que não concederia entrevista em respeito ao período de silêncio da oferta.
 
Até o fechamento da oferta, em 24 de abril, os executivos do BTG Pactual terão cumprido uma agenda extenuante de encontros com investidores no Brasil e no exterior, com paradas que vão além dos mercados mais tradicionais de Europa e Estados Unidos, chegando a Ásia, Oriente Médio e América Latina.
 
Com toda essa super-exposição, o banco aproveitou para mostrar o seu novo logo, que já estampa todo o material de divulgação da oferta. Com visual modernizado, o logo dá mais unidade às marcas BTG e Pactual. Planos de tirar o BTG do nome do banco e retornar às origens foram debatidos nos últimos meses e abandonados, por fim.

(Ana Paula Ragazzi e Vanessa Adachi | Valor)
 

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