Corretoras à caça de dinheiro

Balanços no vermelho e um mercado cada vez mais competitivo forçam corretoras a buscar novos nichos para não ser engolidas pela concorrência.

A crise de 2008 e a saída dos investidores pessoa física do mercado de ações têm feito muitas corretoras de valores operar no vermelho. Um levantamento elaborado a partir de dados do Banco Central (BC) mostra que, comparando-se os três primeiros trimestres de 2011 ao mesmo período do ano anterior, as principais empresas do setor viram suas receitas crescer 27%. Nada mau, não fosse pela última linha do balanço. Na mesma base de comparação, os prejuízos aumentaram assombrosos 144%. Ou seja: as corretoras estão faturando mais, mas sua lucratividade está indo para o ralo. Diante desse quadro, poucos no mercado acreditam que as casas independentes terão fôlego para continuar brigando com os bancos.

Atualmente, existem 102 corretoras em atividade na BM&FBovespa, mas esse número deve encolher em breve. Quem conhece os meandros desse negócio avalia que está prestes a ocorrer uma forte consolidação, com fusões e aquisições envolvendo principalmente quem procura ganhar fatias de mercado disputando preços, por meio da cobrança de taxas de corretagem inferiores à média. Isso deve ocorrer porque essas empresas não têm cacife para competir com os bancos de investimento, brasileiros ou internacionais. Elas tampouco podem atender a multidão de clientes que as concorrentes ligadas aos bancos de varejo conquistam, sem grandes esforços, junto a seus milhões de correntistas.
 
As eventuais saídas para esse impasse são juntar esforços com concorrentes, migrar para novos nichos de mercado ou concentrar esforços em um atendimento personalizado. Essa mudança justifica-se pelo encolhimento do mercado. Em 2011, segundo a BM&FBovespa, o número de clientes cadastrados encolheu 4,5%, de 611 mil para 583 mil, e a persistente baixa no Índice Bovespa não está estimulando quem partiu a voltar a operar. O cenário inóspito tem gerado rumores. Nas últimas semanas, a corretora paulista TOV foi alvo de insistentes notícias de que estaria à venda. Fernando Heller, sócio-presidente, garante que isso é boato. “Não temos a mínima intenção de vender, estamos operando com lucro”, diz Heller.

Como explicar, então, a piora recente nos resultados? “Isso se deve a escolhas erradas de ações que eu fiz”, diz. Para Heller, as corretoras mais famosas estão operando com prejuízo porque montaram grandes estruturas e elevaram seus custos desde que a bolsa abriu seu capital em 2008. “Como ganharam muito dinheiro com o IPO, os donos dessas corretoras acharam que podiam gastar para sempre, contrataram agentes autônomos com comissões exorbitantes, alugaram escritórios de luxo e tornaram a operação inviável”, diz. A TOV, ao contrário dos concorrentes, ocupa um escritório mais do que simples no bairro de Pinheiros, trabalha com estagiários que ganham pouco e controla os gastos com mão de ferro. “Nossa estratégia para sobreviver é reduzir os custos cada vez mais”, diz Heller.
 
Essa estratégia não é exclusividade da TOV. Márcio Cardoso, diretor da corretora paulista Título, também diz que manter os custos baixos é a chance de a empresa se sobressair no mercado. “É melhor ter três produtos rentáveis do que oferecer cinco não tão lucrativos só para proporcionar opções para o cliente”, diz. Já a gaúcha XP aposta em uma estratégia diametralmente oposta. Ela está diversificando seus produtos, oferecendo fundos de investimento próprios e de terceiros, análise de risco, home broker e Tesouro Direto. “Temos uma análise de perfil de risco rigorosa e produtos para todas as faixas de investidor”, diz Luciano Brochman, diretor da XP. Carlos Alberto de Souza Barros, presidente da tradicional corretora Souza Barros, vê a consolidação como uma das opções para a sobrevivência da empresa, mas garante estar na ponta compradora.
 
Algumas operações concorrentes foram analisadas no fim de 2011, mas nenhuma recebeu alguma proposta concreta. “Só compraremos uma operação que se pague”, diz ele. Fontes que atuam no setor avaliam que muitas corretoras usam a estratégia de baratear os serviços e as taxas de corretagem para engordar a carteira de clientes e inflar seu preço na hora de negociar uma associação. E quem seriam as principais candidatas à consolidação? Na opinião de Bruno Di Giorgio, diretor de marketing da corretora Banif Invest, associada ao banco Banif, as mais fragilizadas são aquelas que investiram em automação, tecnologia e melhorias na comunicação com a bolsa. “O custo de atualização tecnológica é alto e as pequenas empresas sofrem mais”, diz Di Giorgio.

(Fernanda Pressinott e Fernando Teixeira | Isto é Dinheiro)
 

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