Fusão com Quattor e novos ativos turbinam Braskem

A "nova Braskem" poderá, no curto prazo, entrar no grupo das cinco maiores petroquímicas do mundo por produção de eteno, matéria-prima do polietileno, uma das principais resinas termoplásticas. Hoje, segundo ranking da consultoria Maxiquim, a companhia que combina ativos de Braskem e Quattor ocupa a 11ª posição, com capacidade de produção de 3,7 milhões de toneladas por ano, e está encostada na Chevron Phillips, 10ª colocada com 4 milhões de toneladas ano – a liderança fica com a Dow Chemical, com 10,7 milhões de toneladas. Contudo, considerando-se projetos já anunciados pela Braskem, em pouco tempo a companhia brasileira deverá superar as 5 milhões de toneladas anuais de eteno, passando a fazer parte do grupo das cinco maiores.

Em novembro do ano passado, a companhia controlada pela família Odebrecht anunciou parceria com a mexicana Idesa para construção de um complexo petroquímico integrado no México, com investimento estimado em US$ 2,5 bilhões e início das operações em 2015. Na Venezuela, a empresa está trabalhando em dois empreendimentos, um voltado à produção de polietileno, com previsão de aporte de US$ 2,6 bilhões, e outro direcionado a polipropileno, orçado em US$ 880 milhões. Os projetos devem entrar em operação até 2012. "Ela praticamente já está no grupo das 10 e a caminho de se tornar a maior das Américas", afirma o sócio-diretor da consultoria, João Luiz Zuñeda.

 
 Apesar do porte destacado, a participação da nova companhia no mercado mundial de resinas será menos significativa. Com capacidade de produção de 5,4 milhões de toneladas de resinas, a "nova Braskem" responde por apenas 3% da oferta mundial desses insumos – 3,6% de polietilenos, 3,8% de polipropileno e 1,2% de PVC. "Isso só reforça a necessidade de uma companhia robusta, com acesso a matéria-prima a custo competitivo e presença internacional", acrescenta Zuñeda.

Além de servir ao projeto futuro da Braskem, que já havia sinalizado o objetivo de ser a número 1 das Américas, a compra da Quattor fortalece a indústria brasileira em um momento de baixa para o setor – até o início de 2012, a oferta líquida adicional de resinas no mundo deve ficar entre 10 e 12 milhões de toneladas anuais, bastante acima do crescimento esperado para a demanda. "O mercado petroquímico hoje é de escala mundial. Quanto maior a empresa, maior a penetração nos mercados e maior o poder de formação de preços junto aos clientes", enfatiza Lucas Brendler, analista da Geração Futuro.

Diluição dos custos é outra vantagem competitiva das petroquímicas de escala global, sobretudo diante de concorrentes que têm acesso a matéria-prima de baixo custo, como ocorre no Oriente Médio. Lá, o milhão de BTU de gás natural custava às empresas do setor entre US$ 1 e US$ 2 enquanto no Brasil o preço variava entre US$ 5 e US$ 6. Hoje, o custo no país recuou, para entre US$ 3,5 e US$ 4 dólares o milhão de BTU, mas permanece distante do preço pago pelas produtoras do Oriente Médio.

Para 2010, a expectativa é a de que a margem operacional das petroquímicas continue sob pressão. Além da maior oferta no mercado internacional, sobretudo do Oriente Médio e da China, a perspectiva de aumento dos preços da nafta, matéria-prima para a produção de eteno, também deverá pressionar a rentabilidade do setor. No Brasil, responde por até 70% dos custos de produção das centrais petroquímicas. Em volume de vendas, contudo, as projeções são de expansão, impulsionadas pela expectativa de crescimento econômico no país, segundo analistas de mercado.

Vitor Mallmann, atual presidente da Quattor e também à frente do Siresp (Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas), disse ao Valor, em entrevista concedida em dezembro, que a demanda no mercado interno deverá crescer entre 5% e 7% em 2010. "São cerca de 500 mil toneladas a mais no mercado". Segundo Mallmann, o setor petroquímico nacional começou apresentar ligeira recuperação a partir do terceiro trimestre do ano passado.

Neste ano, também a valorização do real poderá afetar as margens operacionais do setor, de acordo com relatório do banco Fator. Cerca de 100% da receita do setor é em dólar, mas 80% dos custos de produção estão em moeda estrangeira. Além disso, o produto importado torna-se mais competitivo e ameaça os locais, segundo os analistas do banco, considerando nova apreciação do real.

Assim, a competição com produtos importados será maior em 2010. No ano passado, as empresas conseguiram evitar perda de "market share" para as importações ao manter preços de venda equalizados às variações das cotações no mercado internacional, segundo o relatório.

A partir da combinação dos ativos, a expectativa é a de que a nova petroquímica acelere os planos de internacionalização, ao menos no que tange ao mercado americano. A própria Braskem, em paralelo às negociações com a Quattor, vem mantendo tratativas para compra de ativos nos Estados Unidos. "Ao ampliar presença entre os clientes internacionais, a empresa também abre caminho para aumentar a plataforma de produção no exterior", analisa Brendler.

Analistas, contudo, chamam a atenção para a alavancagem da Quattor, bastante superior à da Braskem. Conforme Brendler, apesar do endividamento elevado da companhia controlada pela família Odebrecht, o nível de alavancagem é baixo, cerca de sete vezes menor que o da concorrente. Ao incorporar a Quattor, a tendência é a de que esse índice suba, o que poderia pôr em risco compromissos assumidos pela Braskem com agentes financeiros. "Um aumento de capital elimina esse risco", aponta. A Petrobras tem 31% do capital votante da Braskem, ante quase 47% da família Odebrecht. A partir da incorporação da Quattor, a fatia da estatal deve subir bem, porém sem alterar o controle da petroquímica, que quer se manter privada.

(Stella Fontes e Mônica Scaramuzzo – Valor Econômico)

 

 

 

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