Fusões e aquisições vão aquecer 2010

Já virou folclore dizer que, antes do Carnaval, os únicos que trabalham duro no Brasil são os próprios carnavalescos. Mas, longe dos galpões das escolas de samba, outro bloco começou 2010 em um ritmo tão ou mais frenético – o das fusões e aquisições. Em suas alas, desfilam executivos de empresas de todos os portes, investidores, fundos de private equity, consultores e advogados. Se o início do ano passado foi atravessado pelo descompasso da crise econômica, que retraiu os investimentos e fez com que as aquisições sumissem da avenida por seis meses, as primeiras semanas de janeiro mostram uma nova nota de otimismo. A compra da Quattor pela Braskem, criando a oitava maior petroquímica do mundo, e a aquisição do braço mexicano do banco ibi pelo Bradesco – ambas antecipadas pelo Portal EXAME – são apenas dois exemplos de que o mercado promete muito samba neste ano. "O apetite dos investidores por novos negócios impressiona neste começo de ano", afirma Darcy Teixeira Júnior, sócio da Tozzini Freire, escritório que participou de duas operações de peso recentemente – a fusão da Casas Bahia ao Ponto Frio, e a venda da Quattor para a Braskem.
Segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers, a previsão para 2010 é de que 700 fusões e aquisições sejam realizadas no Brasil. Se isso for confirmado, o país ficará pouco atrás de 2007, quando bateu o recorde de operações, com 721. "Desde o início de janeiro estamos tocando uma média de 25 transações", afirma Alexandre Pierantoni, sócio da Price. É verdade que o ano passado não foi, propriamente, uma tragédia. Ao todo, foram fechados 630 negócios no país – pouco abaixo dos 643 de 2008. Entre eles, estão movimentos expressivos como a fusão da Sadia com a Perdigão, que criou a Brasil Foods, e a consolidação do setor de varejo, liderada pelo Pão de Açúcar que, em seis meses, comprou o Ponto Frio e o uniu com a Casas Bahia.  "Quase todas as negociações que estavam suspensas por causa da crise foram retomadas, e outras foram iniciadas", afirma Alexandre Bertoldi, sócio-diretor do Pinheiro Neto, cujo escritório está envolvido em 15 operações no momento. "O número de negócios em curso é totalmente atípico para janeiro", completa. A corrida para fusões e aquisições é sustentada pela resistência que o país demonstrou durante a crise mundial nos últimos 18 meses – o que lhe rendeu elogios públicos. Na edição de dezembro passado da revista EXAME, o presidente do JP Morgan, Jamie Dimon, afirmou que o Brasil não é mais um mercado emergente. "Já emergiu", enfatizou Dimon um mês depois de a revista inglesa The Economist estampar na capa a imagem do Cristo Redentor decolando como um ônibus espacial.
Os fundos de private equity – especializados em comprar participações em empresas – devem protagonizar várias transações neste ano. Além dos tradicionais investidores americanos e europeus, novos personagens como indianos e chineses estão chegando por aqui. A consultoria Ernst & Young espera participar de cerca de 140 transações neste ano, 20% mais do que em 2009. "Desse total, cerca de 30% dos negócios devem ser gerados por private equity", estima Carlos Asciutti, sócio da Ernest & Young, que já trabalha com 18 operações desde janeiro. Ele estima que o patrimônio desses fundos seja de 10 bilhões de dólares – e parte do dinheiro ainda está disponível para novas aquisições.
Os maiores fundos também estão se movimentando. O americano Carlyle, gestora de 85 bilhões de dólares de ativos no mundo, tem direcionado o seu radar para o Brasil. Seu lance mais recente foi a compra de 63,6% das ações da CVC Turismo, anunciada no começo deste mês. A expectativa é que a empresa dobre de tamanho até 2015. A compra da CVC reflete a confiança do fundo na expansão da classe média – e deve fomentar negócios também em outras áreas. O Carlyle pretende investir cerca de um bilhão de dólares em cerca de dez negócios na América Latina. "Os setores de varejo e de alimentos são muito interessantes", diz Fernando Borges, representante do fundo na América do Sul.
Outro grupo que vai movimentar o mercado são as empresas de capital aberto. "O ano começou com muitas operações envolvendo o mercado de capitais", afirma Marcelo Cosac, sócio da Felsberg, Pedretti, Mannrich e Aidar Advogados. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) analisa, neste momento, sete pedidos de emissão de ações – três aberturas de capital e quatro captações de empresas já listadas. Ao todo, essas ofertas podem atingir seis bilhões de reais. Parte desse dinheiro deve ser usado pelas companhias para comprar rivais e liderar processos de consolidação. Além disso, a bolsa de valores em alta também facilita fusões e aquisições baseadas em troca de ações. "É um mecanismo pouco usado no Brasil, mas muito recorrente no mundo", afirma Reinaldo Grasson, sócio da consultoria Deloitte.
As empresas brasileiras não devem se restringir a comprar apenas rivais que atuam por aqui. Com o câmbio estável e a volta da liquidez ao mercado financeiro, os especialistas acreditam que o processo de internacionalização continuará forte. Para os próximos dois anos, uma das apostas mais frequentes é de que os bancos brasileiros iniciem a sua expansão mundial, já que o setor viveu uma intensa consolidação interna nos últimos anos. Um exemplo seria o banco Bradesco que adquiriu em janeiro deste ano todo o serviço financeiro do banco Ibi no México. "Há uma tendência no setor financeiro de crescer em outros países antes que seja engolido por concorrentes que têm os mesmos objetivos", afirma Ricardo Veirano, sócio do escritório Veirano Advogados.
Mas setores tradicionais também devem continuar buscando oportunidades lá fora. Prevendo uma disputa ferrenha na exploração das reservas do pré-sal e a corrida pela conquista do mercado global de petróleo, a companhia petroquímica Braskem tem procurado se tornar uma gigante em seu setor. Depois de incorporar a Quattor, com a ajuda da Petobras, a oitava maior produtora de resinas do mundo está com fôlego para fazer alianças estratégicas para se tornar líder na América – hoje ela está atrás apenas da americana Dow Chemical, com quem tem mantido conversas sobre uma provável fusão. "Crescer internacionalmente está na agenda do Brasil. A médio prazo, será uma ação importante para a economia do país. Mas no mercado doméstico ainda há muitos espaços de expansão", diz Barbara Rosenberg, Barbosa Mussnich & Aragão.
No mercado interno, o candidato disparado à consolidação é o setor de açúcar e álcool, que conta com cerca de 50 usinas à venda. Pouquíssimos grupos nacionais do setor teriam condições de fechar muitos negócios, já que a maioria acumula dívidas exorbitantes, decorrentes da crise mundial que acabou com o crédito. Por isso, os especialistas afirmam que o setor viverá um intenso desembarque de estrangeiros. "Há diversos investidores no exterior interessados em aportar capital nesse ramo que cresce de 10% a 15% ao ano", afirma o advogado alemão Christian Roschmann, sócio do escritório Lefosse. Além das gigantes do setor – ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus -, grupos estrangeiros estão consultando assessores locais em busca de negócios, já que o Brasil será beneficiado neste ano por preços elevados da cana em função da menor produção na Índia, na China e no Paquistão.
A intensa consolidação de alguns setores no ano passado ainda deve repercutir em 2010. Os concorrentes não devem assistir impassíveis à fusão do Ponto Frio. com a Casas Bahia, liderada pelo Pão de Açúcar no ano passado. Os especialistas acreditam que os principais concorrentes, como Walmart, Carrefour e Magazine Luiza, tentarão adquirir redes menores para não perderem mais participação de mercado. O que põem pilha nessa disputa são a expansão de renda, a queda na taxa de desemprego e a disponibilidade do crédito que alçam novos consumidores à classe média. "Ao contrário do que todo mundo pensa, o comércio varejista ainda é muito pulverizado, principalmente nas áreas têxtil e supermercados", avalia Nazir Takieddine, sócio do escritório Trench, Rossi e Watanabe.
Na opinião de especialistas, o que pode fazer a diferença nesse setor é o comércio eletrônico aliado ao crédito para pessoa física. Com a inclusão digital e a popularização das vendas on line – cujo crescimento é de 30% ao ano -, a plataforma virtual deverá imantar novos consumidores nos próximos anos. Mas, para atender essa demanda, as empresas deverão estar prontas para parcelar seus produtos no cartão. "Neste ano, haverá uma expansão do crédito de aproximadamente 15%", calcula Veniltom Tadini, diretor-sócio da área de investimento bancário do banco Fator. Redes como a B2W (fusão entre Americanas e Submarino) e a Extra.com perderão participação por conta da entrada – ou do fortalecimento – de novos concorrentes. "Esse quadro estimulará novas operações no mercado", acrescenta Tadini.
O aquecimento da economia brasileira deixará o setor de infraestrutura borbulhando nos próximos anos. Os dois maiores eventos esportivos do mundo vão mexer com a economia do país. Tanto para a Copa do Mundo, em 2014, como para as Olimpíadas de 2016, será destinada uma quantia de dinheiro extraordinária para os setores de construção civil, energia elétrica, siderurgia e mineração. Nesse pacote de investimento bilionário, novos estádios serão construídos, reformas em aeroportos serão feitas, terminais de ônibus ganharão mais frotas de veículos, unidades hoteleiras vão pipocar em volta das principais capitais do país e nas rodovias será proclamada uma caça aos buracos – pelo menos nos acessos aos grandes centros urbanos. "Independente de quem será o nosso próximo presidente, esse segmento continuará recebendo investimentos. Com essa estabilidade, investidores vão buscar consolidações", afirma Marcos Flesch, do escritório Souza, Cescon, Barrieu & Flesch.
No ramos de minério e energia, ambos muito consolidados, há quem aposte num movimento novo nas próximas transações. As empresas prestadoras de serviços auxiliares terão as suas atividades fundidas, ou completamente incorporadas, para facilitar, por exemplo, o escoamento de importação e exportação no segmento de siderurgia. "As unidades terceirizadas ainda são muito fragmentadas no Brasil. Por isso, elas têm um alto potencial de crescimento e de consolidação", defende Carlos Motta, sócio do escritório Machado Meyer, Sendaz e Opice.
Há, é claro, outras carteiras de recomendações como as áreas de saúde, educação, cosméticos, logística e indústria farmacêutica. "Fomos até buscar na Europa um advogado brasileiro para atuar no segmento de bio direito, já que o setor necessita de um profissional especializado para atender à demanda", conta Alberto Murray Neto, do escritório Paulo Roberto Murray. Porém, alguns especialistas são cautelosos quanto à euforia do momento sugestivo para fusões e aquisições. “Será um ano melhor do que o anterior, mas não chegará ao ponto de ser atípico. Ainda há muitas incertezas no cenário mundial", alerta Moacir Zilbovicius, sócio do escritório Mattos Filho Veiga Filho Marrey Jr. e Quiroga Advogados.
É sempre bom lembrar que estamos no Brasil, onde o ambiente de negócios melhorou depois da crise financeira mundial, mas ainda não é uma maravilha. "A incerteza na legislação de alguns setores ainda preocupa os estrangeiros", afirma a advogada Daniela Tavares, do Leite, Tosto, Barros e Associados. De certa forma, o que tranquiliza consultores, advogados, banqueiros de investimento e analistas é a frase cômica do milionário Warren Buffet: "Eu seria um mendigo na rua com um copo de lata se os mercados fossem sempre eficientes".

(Portal Exame)

 
 

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