Grupo SAG põe controle da Unidas à venda

Às voltas com uma renegociação de uma dívida líquida total de R$ 535 milhões, a empresa de locação de veículos Unidas, de capital português, está à venda. A companhia já foi amplamente ofertada a potenciais interessados, segundo apurou o Valor. O grupo português SAG, dono da empresa, teria tomado a decisão de vender o controle da empresa depois que a crise financeira detonada em 2008 abalou as finanças da Unidas, assim como de outras empresas do setor de locação e terceirização de veículos.

As dificuldades começaram com a própria falta de crédito decorrente da crise, pois o setor é altamente dependente de crédito para girar, já que a frota de veículos é financiada por meio de leasing. Um segundo golpe veio com a redução do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para veículos novos, anunciada pelo governo Lula no final de 2008 para estimular as vendas. Esta medida e a retração do mercado de locação derrubaram o preço do carro usado, o que levou a uma depreciação da frota da empresa. A queda no valor do ativo teria sido de mais de 12%. Algumas empresas contabilizaram a depreciação de uma vez e outras vem fazendo isso aos poucos, como a Unidas, que ainda não teria concluído o processo.

Segundo informação de executivos que tiveram acesso a informações da Unidas, o grupo SAG já vinha fazendo aportes anuais na empresa da ordem de R$ 100 milhões para sustentar a operação, mas a partir da crise desistiu de injetar mais recursos e optou pela venda. Há dois anos e meio a Unidas vem amargando prejuízos em seu balanço financeiro. Somente no primeiro semestre deste ano, o prejuízo soma R$ 63,6 milhões. A decisão de venda, dessa forma, pode ter sido precipitada pela pressão dos credores financeiros.

O Banco Espírito Santo, um desses credores, é justamente um dos bancos que está assessorando o grupo SAG na tentativa de venda. O outro assessor na venda é o também português Caixa Geral de Depósitos. Além do BES, entre os credores principais, segundo apurou o Valor, estão o Itaú, o Bradesco e o Safra.

Um grupo estrangeiro estaria em conversas com os portugueses para a aquisição e a gestora de fundos Kinea, controlada pelo Itaú, é outra interessada. Outro que avaliou o ativo, mas não foi adiante nas negociações, foi o fundo de participações Vinci Partners, criada pelo ex-sócio do Pactual Gilberto Sayão.

Segundo o Valor apurou, propostas que vêm sendo feitas envolvem assunção das dívidas, sem desembolso por parte do comprador. A Unidas já foi negociada em condições semelhantes. No final da década de 1990, a locadora foi vendida por R$ 1 para o empresário Marcus Elias, atual presidente da Laep. Elias a revendeu por R$ 30 milhões aos portugueses da SAG.

A Unidas é a segunda maior locadora em operação no país, com uma frota de 35 mil veículos. A Localiza lidera com 75 mil e em terceiro lugar aparece a Locamérica, com 20 mil unidades.

Segundo a Fitch, o perfil de crédito da companhia ainda está pressionado por uma concentração de dívida no curto prazo e pela limitada flexibilidade financeira, já que a maior parte de sua frota garante as dívidas.

As negociações em curso de rolagem da dívida, o favorável ambiente de crédito no mercado brasileiro e a obtenção de melhorias em 2010 nos seus resultados operacionais levam a Fitch a considerar que a Unidas terá sucesso na proposta de rolagem de suas obrigações financeiras mais imediatas. A empresa está emitindo R$ 250 milhões em debêntures que terão vencimento em 2012.

A favor da empresa estão também os sinais de recuperação gradual do mercado de venda de carros usados e em seus preços. O negócio de terceirização e administração de frotas para grandes clientes corporativos apresenta um potencial considerável de crescimento em um ambiente de expansão econômica, dizem analistas. A Copa do Mundo, em 2014, e a Olimpíada, em 2016, no Brasil deverão estimular os negócios.

Para a Fitch, a habilidade da Unidas em acessar linhas de financiamento de prazo mais longo são o seu principal desafio. No final de junho, a posição de caixa e aplicações financeiras, de R$ 74,5 milhões, era "significativamente fraca" em comparação com as obrigações de curto prazo, de total de R$ 490 milhões, concentradas em linhas de capital de giro de R$ 281 milhões, notas promissórias a vencer em outubro, de R$ 38 milhões, e debêntures, de R$ 71 milhões. A dívida total era de R$ 673 milhões, e os vencimentos de longo prazo para 2011 somavam R$ 61 milhões.

Segundo concorrentes, a Unidas fechou contratos agressivos e de baixa rentabilidade. Agora que a situação financeira apertou, a estratégia continua. A empresa tem uma parceria com Gol em que os passageiros da companhia aérea têm 50% de desconto no valor da diária de locação.

A Fitch espera que a Unidas obtenha avanços em seu perfil de dívida, fruto das novas captações, ainda que continue operando com baixa liquidez. A combinação do acesso aos recursos de sua planejada captação no mercado de capitais a desinvestimentos líquidos e fluxo de caixa das operações será fundamental para evitar pressões.

Em junho o valor de mercado da frota da Unidas era de R$ 822 milhões, o que correspondia a 1,2 vez a dívida total da empresa. Historicamente, esse indicador de cobertura da dívida sempre foi superior, da ordem de 1,4 vez a 1,5 vez. Ainda em junho, cerca de 34% da frota não estavam comprometidos como garantia da dívida, o que mostra deterioração em relação aos 60% registrados em 2009.

A necessidade de a Unidas cumprir com cláusulas financeiras restritivas em suas debêntures levou a empresa a reduzir compulsoriamente suas operações. Com o objetivo de gerar fluxo de caixa livre positivo e amortizar dívida, a companhia acelerou a venda de veículos de sua frota e reduziu o volume de renovações.

(Vanessa Adachi, Cristiane Perini Lucchesi, Beth Koike e Marli Lima | Valor)

 

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