J&F assume a Delta sem desembolso

Foi selado ontem o destino da carioca Delta Construções, empresa acusada de envolvimento nos escândalos de corrupção que têm como pivô o bicheiro Carlinhos Cachoeira, além do senador Demóstenes Torres (ex-DEM). A holding J&F Participações, controladora da processadora de carne bovina JBS, assumirá a gestão da construtora na próxima segunda-feira e deve indicar hoje um novo presidente executivo para o seu comando.
 
Segundo fontes do grupo, o governo federal foi consultado sobre o negócio e "não se manifestou contra". "O governo não nos pediu nada, mas não se faz um negócio desse sem consultar Brasília", disse um executivo da J&F. O governo é, indiretamente, sócio da J&F, uma vez que o BNDESPar, o braço de participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), detém 31,4% das ações do JBS.

A J&F, da família Batista, com receita anual superior a R$ 55 bilhões, não desembolsou um centavo para assumir a gestão da Delta. Vai contratar nos próximos dias uma empresa de auditoria para verificar as contas e os contratos da construtora. Ao fim desse processo ou mesmo durante, decidirá se comprará ou não a companhia. Uma fonte estima que, se comprasse a empresa hoje, portanto, antes da auditoria, a J&F pagaria pouco menos de R$ 1 bilhão pelo negócio.
 
Pelo acordo fechado ontem, se decidir ficar com a Delta, a J&F honrará o pagamento da companhia com dividendos da própria construtora, gerados a partir da gestão que começará na segunda-feira. De acordo com a J&F, a Delta tem R$ 900 milhões em recebíveis, um portfólio de R$ 4 bilhões em quase duas centenas de obras públicas já contratadas e patrimônio líquido de R$ 1 bilhão.
 
Os novos gestores não estão preocupados, segundo assegurou um integrante do grupo ao Valor, com a possibilidade de o governo federal declarar a inidoneidade da Delta, por causa de seu suposto envolvimento em irregularidades. "Uma grande construtora brasileira passou dez anos como inidônea. Foi à Justiça e, ao fim desse prazo, ganhou a causa", lembrou uma fonte.
 
"Na pior das hipóteses, devolve-se a empresa", disse a mesma fonte, referindo-se à possibilidade de a auditoria encontrar problemas legais na Delta. Em comunicado divulgado na tarde de ontem, a J&F informou que contratou a consultoria KPMG para conduzir um "rígido processo de auditoria".
 
A Delta tem como principal acionista o empresário Fernando Cavendish, dono de cerca de 80% do capital. Na semana passada, ele deixou a presidência da construtora, pressionado pelas denúncias de envolvimento com Cachoeira.
 
Fundada há 50 anos e com faturamento em torno de R$ 4 bilhões, a Delta detém centenas de contratos, a maioria de obras públicas, com governos estaduais, a União e estatais, como a Petrobras (refinarias do Comperj e Reduc), além de obras relacionadas à Copa de 2014 (reforma do estádio do Maracanã) e da Olimpíada de 2016 (construção da Transcarioca, corredor viário que ligará o bairro da Barra da Tijuca ao aeroporto do Galeão, projeto do qual se retirou em meio aos escândalos).
 
O leque de atuação da Delta inclui obras de infraestrutura urbana, saneamento e incorporação. Segundo o último anuário da revista "O Empreiteiro", com números de 2010, somente 1% do faturamento da Delta Construções é oriundo do setor privado. Na lista das maiores construtoras do país, em receita, ela fica na sétima posição – atrás de Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS e Galvão Engenharia.
 
A J&F informou que a auditoria sobre os ativos e contratos da Delta é que vai fixar o valor da empresa, servindo como base de cálculo para a opção de compra da holding. "Caso exercida, a opção de compra prevê que os recursos provenientes da distribuição dos dividendos futuros da própria Delta serão utilizados no pagamento dos ativos da empresa", informa a nota, ressaltando que não usará recursos próprios ou de terceiros para a operação.
 
O grupo não divulgou quanto do capital da Delta poderá ser comprado, nem de quem são as ações a serem adquiridas. A construtora, por sua vez, não divulga qual é sua composição acionária.
 
Pelo acordo firmado, a J&F poderá substituir todos os atuais gestores da Delta – presidente, diretores e membros do conselho de administração -, implantando um gestão profissional na empresa. Mas o contrato preliminar firmado ontem fica condicionado aos resultados da auditoria interna e que o mesmo exime os novos gestores de responsabilidades em relação aos contratos em vigor até a conclusão da auditoria.
 
"Nosso objetivo é honrar os contratos que serão auditados e preservar os mais de 30 mil empregos da Delta", disse Joesley Batista, acionista da J&F, no comunicado. A holding, além do JBS, está presente em negócios de celulose e papel (Eldorado), alimentos (Vigor), higiene e limpeza (Flora) e concessão de crédito ao agronegócio (Banco Original).
 
O novo negócio marca a entrada da J&F no setor de infraestrutura. "Consolida a presença da holding em áreas dinâmicas da economia brasileira, fundamentais para o desenvolvimento econômico do país", afirmou Henrique Meirelles, presidente do conselho consultivo da J&F, na nota.
 
O grupo esclareceu também que Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula, "não terá nenhum cargo ou função na gestão da empresa de construção".
 
O grupo Galvão, holding que controla a Galvão Engenharia, negou ontem que esteja entre os sócios da Delta. "O Grupo Galvão, suas empresas, executivos e acionistas não possuem nenhum vínculo societário, estratégico ou operacional com a Delta Construções, resumindo seu relacionamento a eventuais participações em consórcios de obras, assim como faz com outras empresas do setor", informa comunicado do grupo.

(Cristiano Romero, Ivo Ribeiro e Fábio Pupo | Valor)
 

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