Rumos da Gafisa seguem incertos

O anúncio da Gafisa de que não aceitou a proposta de compra de ativos feita pela Equity International (EI), do investidor Sam Zell, e pela GP Investimentos, reforçou as dúvidas do mercado em relação aos rumos da companhia. Os questionamentos ganham força num momento em que a Gafisa precisa equacionar os problemas herdados da Tenda e reduzir seu nível de alavancagem. As expectativas se dividem entre os que avaliam como provável a companhia receber novas ofertas e os que acreditam que a empresa vá preferir o caminho de vender terrenos e empreendimentos para fazer caixa.
 
Ontem, a Gafisa divulgou, em fato relevante, considerar que a proposta feita por EI e GP, em 2 de fevereiro, "subavalia significativamente os ativos e negócios envolvidos e implica substanciais custos de transação e altos riscos de execução". Procuradas pela reportagem, Gafisa, EI e GP informaram, pelas respectivas assessorias de imprensa, que não iriam se manifestar. Não foram divulgados valor da proposta nem ativos envolvidos.
 
Segundo fonte, a avaliação do conselho de administração da companhia foi que a proposta "não criaria valor para os acionistas" e, por isso, a opção foi por nem convocar uma assembleia para discuti-la.

A decisão leva a companhia de volta à etapa anterior à proposta, sem razões que façam os preços das ações reagirem no curto prazo, ainda mais quando se considera a perspectiva de resultados ruins no quarto trimestre de 2011. Há quem diga até que 2012 será "um ano perdido para a ação da Gafisa". Os papéis da companhia fecharam ontem em queda de 7%, cotados a R$ 4,78, perdendo parte da forte valorização registrada entre o anúncio da oferta e o anteontem.
 
A maior parte das instituições financeiras que acompanham a empresa recomenda a manutenção dos papéis. Dados da Bloomberg apontam que a recomendação feita por 11 casas é de manutenção das ações. Outras seis indicam compra e uma, venda. O preço-alvo médio é de R$ 7,27.
 
Embora a companhia não tenha divulgado quais ativos estavam em negociação, os rumores do mercado davam conta de que estavam na mesa Gafisa e Tenda – ficando de fora apenas Alphaville – e que o preço a ser pago pelas duas divisões seria de R$ 1 bilhão.
 
Com esse valor em caixa, Alphaville e a dívida líquida da divisão considerada a joia da coroa, a estimativa para a ação da nova Gafisa seria de R$ 6. Não haveria riscos para os acionistas, mas o ganho em relação ao preço atual (de R$ 4,78) seria pequeno, segundo um profissional do mercado. A aposta teria sido, então, que o retorno futuro do grupo, mantidas todas as divisões e após equacionados os problemas, traria ganhos maiores, com a cotação podendo alcançar R$ 7 ou R$ 8 por papel.
 
Justamente pelo entendimento que os investidores queriam pagar pouco pelos ativos, parte do mercado não estranhou que o negócio não tenha saído. Mas houve também quem tenha se surpreendido. "Era uma ótima chance de a Gafisa resolver seus problemas", diz um executivo do setor.
 
Ontem, comentava-se que a Gafisa ou parte dela pode interessar a outros compradores, como fundos de participações. "Com frequência, bancos de investimentos nos ligam para conversar sobre Gafisa", conta outro executivo. Até uma nova negociação com Sam Zell e GP foi citada, no mercado, como possibilidade. Independentemente de quem seja o candidato potencial, resta saber se o valor atenderá às expectativas da Gafisa ou se, novamente, o entendimento será que não vale à pena. Esse tipo de decisão fica ainda mais difícil quando se considera que, segundo fonte, não estaria havendo consenso no próprio conselho da companhia sobre os rumos a serem buscados.
 
Do lado de quem espera que a prioridade da Gafisa será arrumar a casa, a perspectiva é que a companhia opte por, mais uma vez, diminuir de tamanho na tentativa de resolver seus problemas. Em novembro, a empresa reduziu sua meta de lançamentos para 2011, com cortes que atingiram, principalmente, projetos da Tenda. A venda de terrenos, de empreendimentos ou parte de projetos também é esperada. A estratégia anunciada, em novembro, de concentrar os lançamentos com a marca Gafisa nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro já previa que áreas do banco de terrenos que se destinariam a projetos fora desses Estados poderiam ser vendidas.

(Chiara Quintão | Valor)

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