Cemig vai ao mercado para novas aquisições

A compra de participações do grupo majoritário na Light, que pode chegar a R$ 1,6 bilhão, não esgota o apetite da Cemig. Para fazer a aquisição de uma fatia adicional na Light, a Cemig conta com R$ 2,7 bilhões obtidos via emissão de debêntures e "commercial papers". O diretor financeiro da Cemig, Luiz Fernando Rolla, disse que a empresa deverá aprovar um novo plano de investimentos para que a política de expansão tenha seguimento.

"À medida em que outras oportunidades de investimento aparecerem, iremos elaborar outras estratégias, que, de qualquer forma, jamais irão afetar a nossa classificação de risco", afirmou. O executivo disse que os recursos para a aquisição de ações da Light não irão afetar o perfil de endividamento da empresa. A Cemig já manifestou interesse pela aquisição de outras distribuidoras, como a CEB, no Distrito Federal, e a Ampla, que atende parte do Rio de Janeiro.

Ontem, no primeiro pregão após o anúncio do negócio, a ação ON da Light fechou cotada a R$ 25,63, com queda de 1,34%. Já a ação PN da Cemig fechou a R$ 31,17, com queda de 0,72%. O índice Bovespa, do qual as duas ações fazem parte, fechou com alta de 2,12%.

Rolla disse que o financiamento para aquisição de mais uma fatia na Light está assegurado. "Metade do investimento será feito com próprio caixa e outra parte por meio do FIP (Fundo de Investimento em Participações)", disse Rolla. Ele participou de teleconferência com analistas de investimento para detalhar a operação pela qual a Cemig vai aumentar sua participação no capital da Light.

Presente à teleconferência, o presidente da Cemig, Djalma Bastos de Morais, afirmou que a empresa pretende investir entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões em novas aquisições em 2010. O foco, segundo ele, deve recair sobre empresas que tenham sinergias com a Cemig. No mercado, há dúvidas se esse investimento será todo feito pela companhia mineira. "A Cemig pode não colocar 100% desse valor", disse um analista que preferiu não se identificar. A avaliação de analistas é de que a Light passa a ser um veículo de crescimento da Cemig na área de distribuição de energia elétrica sempre que houver sinergias de ativos. Seria o caso, por exemplo, de uma virtual negociação com os controladores da Ampla.

Os analistas aproveitaram a teleconferência para tirar dúvidas que ainda haviam ficado após a divulgação dos fatos relevantes no dia 30 de dezembro, quando se anunciou que a Cemig havia fechado contratos de compra e venda de ações com Andrade Gutierrez e Equatorial Energia. Cada uma das empresas tem 13,03% do capital da Light.

Inicialmente, o grupo de controle da Light era dividido em quatro fatias iguais: Cemig, Luce, Andrade Gutierrez e Equatorial. A Cemig manterá os seus 13%, assim como a Luce, e comprará a fatia dos outros dois sócios no bloco de controle. O restante do capital da Light é dividido, em partes iguais, pelo BNDES e pela flutuação livre no mercado. O banco de fomento vem acompanhando de perto todas as discussões. Morais sinalizou que devem ocorrer mudanças no comando gerencial da Light, o que levantou preocupações em parte dos analistas.

Do total a ser pago à Andrade Gutierrez e à Equatorial, R$ 785 milhões devem vir do caixa da Cemig e R$ 785 milhões do novo fundo. O valor das ações para os dois desembolsos será igual e a empresa prevê um ganho real de 11% em dividendos para os acionistas. Rolla não quis comentar se a transferência de ações da Light irá facilitar a entrada da Andrade Gutierrez no capital da própria estatal mineira, com aquisições de ações em mãos dos sócios americanos da Cemig.

Ontem os diretores da Cemig e da Equatorial, que participaram da teleconferência com os analistas, deixaram claro que não está nos planos "reestatizar" a Light. Isso porque a Cemig é controlada pelo governo do Estado de Minas Gerais. Um analista disse que caso a Cemig adquirisse integralmente os 26% detidos por dois dos sócios (Andrade e Equatorial), a empresa mineira poderia ficar com 39% no bloco de controle da Light. Segundo ele, a Cemig deve ficar com uma fatia adicional mínima de 20% ou até 50% menos uma ação dos 26% que estão sendo adquiridos dos outros dois sócios. A Cemig constituirá, em associação com um FIP, uma sociedade de propósito específico (SPE) na qual será minoritária. O FIP deve ter entre 50% mais uma ação, no mínimo, podendo chegar até 80% dos 26%, disse o analista.

A Cemig montou uma engenharia financeira semelhante à utilizada para a aquisição da empresa de transmissão Terna, no ano passado. A nova operação conta com prazo de 18 meses para ser concluída. O ponto mais complexo, segundo Rolla, é a reestruturação societária da Equatorial que terá que ser feita antes da transferência das ações para a Cemig. "Nossa preocupação era montar uma estrutura que não estatizasse a Light. É controverso do ponto de vista jurídico se isso seria possível ou não. De qualquer forma, a estatização retiraria a agilidade necessária para a empresa", afirmou Rolla.

(César Felício e Francisco Góes – Valor Econômico)

 

 

 

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