Fechamentos de capital dominam cena em 2012

As aberturas de capital estão paradas há oito meses, enquanto o movimento oposto, de fechamento de capital, é crescente – uma situação que não se via desde a revitalização do mercado brasileiro em 2004.
 
O resultado é que a BM&FBovespa está prestes a encolher quase R$ 30 bilhões em valor de mercado.
 
Com a oferta pelas ações da Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário (CCDI), lançada no fim da semana passada, já são cinco baixas na bolsa paulista – três dessas companhias provenientes justamente da retomada do mercado. Além da construtora, a UOL deixou o pregão no fim do ano passado e o Itaú está perto de retirar a controlada Redecard.
 
As operações, juntas, podem movimentar um total R$ 13 bilhões, o equivalente à liquidez desses papéis. A próxima a sair será a Confab, cujo leilão deve ocorrer dia 23 de abril. As demais ainda estão em fase de aprovação na Comissão de Valores Mobiliários. Também falta o desfecho da proposta da Marisol.
 
Na opinião de Cristiana Pereira, superintendente de relações com empresas da bolsa, desde o início, imaginava-se que após algum tempo haveria uma depuração das estreantes. "Se o mercado não atende mais como fonte de financiamento, a empresa pode avaliar essa possibilidade [de sair]."
 
Desde 2004, a BM&FBovespa recebeu 136 novas companhias – 64 (47%) chegaram em 2007.
 
As justificativas para sair vão desde a falta de cultura até o modelo de negócios.
 
Por enquanto, segundo Cristiana, as iniciativas não causam temor. "Essas notícias nos preocupavam quando só havia porta de saída e não havia de entrada."
 
Embora as ofertas inicias de ações estejam paralisadas, ninguém dúvida que a bolsa continuará a atrair novas empresas. Desde a chegada da Abril Educação, em julho, ninguém mais tocou o sino do pregão para marcar o início de seus negócios.

Mesmo assim, a lista de companhias no aguardo do registro para suas colocações tem quatro interessados: o banco BTG Pactual, a companhia de serviços para petroleiras Seabras, a fabricante de móveis Unicasa e a empresa de locação de veículos Locamérica.
 
A abertura de capital traz benefícios, destacou Cristiana, mas também, desafios. "A companhia tem que estar disposta a se relacionar com o mercado e ir além das obrigações contratuais para obter diferenciais competitivos em seu custo de captação", disse ela.
 
Para Maria Helena Santana, presidente da CVM, esse movimento não tem o caráter que teve no passado, quando não havia interesse no mercado. "É natural. Sempre haverá um certo número de fechamentos e de aberturas."
 
A professora Érica Gorga, da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, lembrou da existência do BNDES, que pode ser considerado como suficiente por algumas empresas. "Ficar no mercado não é uma decisão com base nas operações que foram feitas, mas naquelas que a companhia vislumbra fazer", explicou Érica.
 
No fim dos anos 90 e início de 2000, Maria Helena estava na então Bovespa, como diretora de relações com empresas, e acompanhou de perto o encolhimento do mercado. Na época, a bolsa não cumpria seu principal papel de agente financiador e era substancialmente menor. Ela também atuou diretamente na criação do Novo Mercado, como aposta de melhoria da percepção dos investidores sobre segurança.
 
Em 1999, os investidores estrangeiros movimentavam R$ 70 milhões por mês, no Brasil, entre compras e vendas. No ano passado, por mês, as idas e vindas passaram de R$ 1,1 bilhão.
 
O valor de mercado da bolsa saiu de R$ 409 bilhões para R$ 2,3 trilhões e o giro diário médio da bolsa foi praticamente multiplicado por dez de 1999 a 2011 – saltando de R$ 630 milhões por pregão para R$ 6,5 bilhões.

É também por conta dessa expansão incontestável que banqueiros de investimento estão assistindo a essas operações como uma depuração natural do mercado. Passados alguns anos após o boom de 2007, é razoável que as companhias decidam se faz realmente sentido para seu negócio serem companhias abertas.
 
Na opinião de Maria Helena, em fases ruins de mercado, de baixa das ações, é normal que os fechamentos de capital possam superar as aberturas, durante um período.
 
Luiz Martha, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), destaca que algumas empresas, seduzidas pelos preços elevados das ações, podem ter se precipitado durante euforia das aberturas. "Não é fácil se adaptar à cultura de mercado."
 
Além disso, ele lembrou que o cenário ruim de bolsa também contribui. "Se o controlador vê uma perspectiva muito boa para seu negócio e acredita que os investidores não estão dando o devido valor, pode optar por tirar o negócio do mercado", disse Martha.
 
A existência do dono também foi apontada, por profissionais que lidam com essas operações, como explicação para decisões mais emotivas. Para aqueles que a rotina de mercado ainda é nova e o sobe e desce das ações, uma montanha-russa, o desafio de momentos ruins é um desgaste emocional. Por isso, há aqueles que optem por não ter que dar satisfações nesses períodos.

(Graziella Valenti | Valor)

+ posts

Share this post

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.