Pedro Doria: Startup carioca nasce assim

Os rituais parecem com os do Vale do Silício, mas o cenário desta novidade é a Gávea

Na tarde da última sexta-feira, dia 16, enquanto os primeiros iPads 3 eram vendidos nos EUA, dava para sentir um certo cheiro de Vale do Silício no Jockey Club, da Gávea. Ao menos, o clima era esse no salão do restaurante Victória, enquanto ocorria o Demo Day da aceleradora 21212. Um por um, os representantes de dez empresas de tecnologia iniciantes defendiam suas iniciativas e pediam dinheiro a investidores brasileiros e estrangeiros. Querem crescer. E o evento dá uma pista de que algo está mudando no Rio.Os fundadores da 21212 são cariocas e novaiorquinos. É daí que vem o nome: o código de área do Rio é 21, o de Nova York 212. Eles têm uma ambição: ajudar na decolagem de 200 empresas em dez anos. São dez por semestre, e a primeira turma se “formou” sexta. Todas startups de tecnologia. A aceleradora oferece espaço físico, consultoria que vai de jurídica a financeira, algum dinheiro e, principalmente, ajudam a fazer contato com investidores. Tinha até gente de Sand Hill Road.
 
Sand Hill Road é a avenida que separa, simultaneamente, o campus da Universidade de Stanford e as cidades de Palo Alto e Menlo Park. Lá se concentram os venture capitalists, os VCs, investidores que põem o dinheiro inicial em quase tudo que nasce no Vale do Silício. Os contatos da turma da 21212 são bons o suficiente, já que muitos dos principais VCs do Vale estão de olho em suas empresas.
 
O ritual do pitch, a cantada para conquistar o investidor, também é o mesmo. Um deque de slides bonitos e um discurso curto que segue a fórmula: apresenta um problema que muita gente tem, pincela as soluções que existem no mercado e propõe a solução que, juram os empreendedores, é melhor. No Jockey, todas as cantadas foram em inglês.
 
O ritual pode ser californiano mas as soluções são para problemas locais. A turma do ResolveAí, por exemplo, está fazendo acordos com empresas de táxi brasileiras. Em vez de ligar para vários números distintos, o cliente pede um carro via app no celular uma única vez e ainda o acompanha chegando a sua casa pelo mapa. Craques.com quer ser intermediário na apresentação de jovens jogadores brasileiros para times mundo afora. Igloo se aproveita do fato de que a entrega de compras, no Brasil, é barata para permitir que o cliente escolha um cardápio de receitas assinadas por chefs bacanas para toda a semana, aperte um botão, e nessa já feche a encomenda no supermercado.
 
O Brasil é atraente. Entre um empreendedor e outro, se revezavam no palco do Jockey conferencistas como o ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, Arminio Fraga, que falavam um pouco de como veem a situação do país. Existem alguns motivos que tornam o país, e o Rio, interessantes. Um deles é que somos, culturalmente, gente que adota novidades tecnológicas muito rápido. Outro é que a economia está mesmo crescendo e o mercado não está, ainda, saturado. Algumas soluções que deram certo no exterior ainda não foram aplicadas aqui. É o caso do PagPop, que permite cobrança de cartão de crédito via smartphone, sem a necessidade de uma máquina própria. Noutros casos, o Brasil é um lugar barato para fazer testes. Investir poucos milhões em uma startup por aqui para avaliar como o público recebe uma solução, muitas vezes, é mais barato do que fazer isso nos EUA ou na Europa.
 
É empreendedorismo de verdade, startups com cheiro local. O Rio ficou mais interessante, cosmopolita.
 
Há algumas semanas, escrevi por aqui sobre os abusos sofridos por funcionários que produzem o hardware da Apple, na China. Um dos casos mais chocantes era o de um homem que perdeu os movimentos da mão por gestos repetitivos na produção de iPads e iPhones. As informações vinham de uma edição do This American Life, da NPR, Rádio Pública dos EUA. Fazem, por lá, um dos mais sérios jornalismos do país. E como contam bem uma história. Neste fim de semana, o âncora Ira Glass levou ao ar uma edição que desmonta a história.
 
Uma equipe da mesma NPR descobriu a intérprete de Mike Daisey, na China. O programa se sustentava no depoimento deste ator, que viajara pelo país em busca de entender como iPhones eram feitos. A moça diz que vários dos encontros relatados, como o do homem sem movimentos, não ocorreram.

(Pedro Doria | O Globo)

 

 

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